Bonde dos comportados
Um traço marcante da obra de Machado de Assis, um dos autores mais importantes da sua geração, é a fina ironia. Sua crônica "Como comportar-se no bonde", de 1883, é uma verdadeira radiografia dos usuários de um tipo de condução que ganhava as capitais do país - mostra que as críticas que se fazem hoje aos incômodos telefones celulares nos transportes públicos não é algo tão novo. Os dez artigos do seu"projeto de lei" são mais um antológico deboche dirigido à sociedade da época. "Os encatarroados podem entrar nos bondes, com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quantro"; "Toda pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés...". Além da ironia, o texto mostra o contraste entre o Brasil dos sonhos da "boa sociedade" e aquele verdadeiro, que decidiu chegar de bonde à modernidade.
(Revista de História da Biblioteca Nacional,nº69,junho2011.)
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